|
Participação da AACS
na CONFERÊNCIA "NEWS TECHNOLOGY" Londres, Maio 2000
Nos dias 17 e 18 de Maio de 2000 esteve reunida em Londres uma conferência sobre "News Technology" organizada por News World com a presença de cerca de 200 especialistas de 26 países, incluindo representantes da SIC. O objectivo da conferência era o de avaliar o grau de integração das novas tecnologias digitais nos sistemas de produção e difusão de notícias, bem como as consequências futuras da convergência na organização dos noticiários, considerados a parte mais significativa da produção própria de televisões, jornais, rádios, portais da internet. A ideia que me foi possível colher de quanto ouvi e vi durante a conferência leva-me a uma imagem orwelliana da informação controlada por invísivel mas omnipresente "big brother" e destinada a um consumidor, não a um cidadão, condicionado em todas as fases de acesso a essa informação. Uma informação fortemente concentrada que se dá ao luxo de oferecer ao consumidor a possibilidade de escolha, mas dentro de sistemas previamente modelados. A conferência limitava-se à produção de informação na era digital, mas os modos de fabricação e de recepção podem supôr-se idênticos noutras áreas de programação do audiovisual. Por coincidência, está em cena no Lyric Theatre a peça "Comic Potential" de Alan Ayckbourn, que tem como lugar de acção um estúdio de televisão do futuro em que se preparam telenovelas representadas por actoides, máquinas programadas para manifestarem os sentimentos correntes nas "soap operas". O personagem principal apaixona-se por uma actoide "muito humana", que acabará por ser nomeada directora de estúdio! A revolução em curso Peter Hortencius (Personal Systems Group Director, IBM) afirmou no início da conferência que a tecnologia da computação e da digitalização actualmente utilizada na estruturação da sociedade de informação se desactualiza a um ritmo de dezoito meses, sendo substituida por uma nova geração de produtos mais rápidos e com maior capacidade de compressão de informação. Por seu turno, os tempos de fabricação e comercialização de produtos destinados ao consumidor são necessariamente mais lentos que os tempos da invenção, pois é relativamente demorada a disseminação e a estabilização de um produto no mercado de modo a torná-lo vendável a um preço que garanta a sua implantação junto das grandes massas de consumidores. Assim, muitas novidades hoje acessíveis a alto custo só chegarão ao mercado quando tiverem sido tornados obsoletos pelas novas descobertas. Estão disponíveis, e foram mostrados, telefones com um pequeno écran suplementar que consente de ver programas de televisão; relógios com mostradores que são écrans e dão acesso à internet e a TV; ratos de computador, "emotion mouse", capazes de avaliar o estado de espírito do utilizador e de o "orientarem" na escolha da informação a recolher da rede; folhas de écran flexíveis que permitem ler as notícias num jornal virtual, etc.. Em perspectiva, "personalised news cast" que darão a possibilidade de seleccionar para leitura apenas as notícias relativas aos temas que interessam o utilizador. Tendo sido previamente dado ao computador as palavras chaves, este irá seleccionando e armazenando a informação que automaticamente vai chegando, podendo mesmo emitir um bip de alarme para chamar a atenção do receptor. Este processo de selecção acabará talvez por se impôr, se é certo que já hoje produtores como a Independent Television (ITV) distribuem diariamente informação que corresponde a 45 horas de notícias, ou seja informação que levaria quase dois dias a ver ou ler. A era do telefone como veículo preferencial de difusão de notícias é uma realidade muito próxima. Segundo um especialista da NOKIA, "content goes mobile" e em 2003 haverá mais telefones portáteis capazes de recolha de informação do que personal computers. Um responsável da BBC considera que "mobiles are already a mass market platform and likely to be widely used for content services in the future", razão pela qual a BBC está já a experimentar com "a variety of providers" a difusão de notícias por aquele meio. Meio considerado "very constrained" e destinado a um público "extremely focused", sobretudo jovem, que será necessário atrair para uma sucessiva recolha de informação mais detalhada em fontes nobres como a Imprensa, a TV, a Rádio ou a Web. A agência Reuter tem em projecto um departamento Reuters Mobile, o que seguramente aumentará a influência das mensagens que transmite, alargando o seu actual mercado electrónico que é de 900 Web sites, correspondentes a uma consulta diária de 40.000.000 pessoas! Estaria assim em vias de definição a "mobile information society".
Concentração A rentabilização dos sistemas digitais nesta fase de convergência determina uma concentração vertical dos operadores que se organizam de modo a difundirem os conteúdos pelo máximo de veículos possíveis. A informação que for elaborada, por exemplo, para a televisão deve poder passar para a radiodifusão, mas também para o computador, o palm pilot, o telefone e a imprensa escrita. A convergência determina uma integração industrial que pretende englobar todas as plataformas possíveis, que, por sua vez, leva a um "integrated production concept" a desenvolver por cada grupo na sua estratégia comercial, querendo isto dizer, como foi referido num recente encontro da AACS com o Instituto de Comunicações de Portugal, que o objectivo último da convergência é fidelizar um consumidor por diversas vias. Todos os dias a imprensa mundial, incluindo a portuguesa, se refere a acordos e fusões entre operadores de telecomunicações e produtores de conteúdos. Fusões nacionais e transnacionais que levam à definição de trusts mais ou menos encapotados visando alcançar posições hegemónicas no mercado, com o inerente desejo de controle da opinião. Esta aproximação entre mentalidades e negócios até há pouco bem diferenciadas foi também visível nesta conferência que reunia especialistas de todas as áreas implicadas, ávidas de colher informações em todos os campos.
Reformulação dos modos de informar É evidente que a revolução tecnológica tende a ditar a forma de apresentação dos conteúdos, se é ainda verdade que o "medium is the message". Mais talvez do que a forma, a tecnologia vai determinar a própria selecção de conteúdos. Kenneth Tiven da CNN, um velho jornalista que é hoje o vice-president of research and development daquele operador, disse que sentira a necessidade de se dedicar às novas tecnologias para não ser dominado pelos especialistas, pois considerava que a inovação deveria estar ao serviço da melhoria dos conteúdos e da sua comunicação: "I have learned this engineering business for self-defense". Um tal voluntarismo é, no entanto, ameaçado pela eficácia da própria tecnologia, como se poderá apreciar pela intenção do programa ANANOVA que projectou uma personagem hoje conhecida por aquele nome para apresentar notícias na internet, constituindo assim "the world first virtual newscaster" ou seja um "virtual anchor" ou "pivot". As considerações que levaram à definição do personagem ANANOVA e o sucesso do seu acolhimento são preocupantes. Os projectistas decidiram-se por um personagem feminino depois de estudos de mercado terem confirmado que a mensagem veiculada por uma mulher é considerada mais fiável do que por um homem. Escolheram uma personagem jovem de cabelo verde, para evitar conotações contraditórias ligadas aos cabelos loiros, castanhos, ruivos ou negros. Deram-lhe uma "credible, engaging personality" para fixar a atenção do utilizador e introduziram um sistema de emoções a serem traduzidas pela expressão facial em função do conteúdo das notícias. Dadas as dificuldades de programar a articulação dos sons sintéticos da sua voz com o devido sincronismo dos lábios, o número de palavras e frases a utilizar é relativamente reduzido. Para os programadores, segundo foi dito, é uma apresentadora ideal: trabalha 24 horas por dia, sem férias, sem ir à casa de banho, e sem se queixar. O sucesso desta "cyberbeauty" foi imediato após a sua apresentação em Janeiro de 2000, com um grau de aprovação de 80% por parte do público, determinando "guest appearances" da ANANOVA nos mais importantes telejornais. O site está operacional desde Abril de 2000 e a empresa que o produz passou a chamar-se ANANOVA. Da visão de algumas imagens verifica-se o caracter extremamente artificial da personagem, próxima da animação dos jogos electrónicos que há alguns anos vêm seduzindo gerações de jovens que são o público potencial deste tipo de sites. Não só as limitações da animação atraz referida impõem um tipo de enunciado noticioso pouco sofisticado, como a inserção de imagens reais a ilustrar os factos referidos nas notícias, como em qualquer telejornal, contamina o seu sentido, tornando-as artificiais, como se podia constatar no exemplo mostrado com notícias dos incidentes na Serra Leoa.
Adaptação das redacções ao digital Nesta conferência não se falou na necessidade de dotar o público de um sistema da TV digital como condição de acesso às potencialidades da convergência, parecendo que os meios de difusão implantados já garantem esse acesso. A maior preocupação, ilustrada por diversos intervenientes, foi a de adaptar as equipas de jornalistas à digitalização, à concepção de notícias para a multiplicidade de veículos e à própria adequação dos jornalistas da TV ao trabalho de captação e edição de imagens, bem como o da sua transmissão, no caso da reportagem no exterior, e posterior arquivação no arquivo central da rede. Ou seja ultrapassar a situação actual de "newstechnology for oldtime newscast". Como se disse na conferência, "technology is not the problem; the problem is people". A rede ITN levou dois anos a completar a digitalização da produção de notícias e o progressivo treino dos jornalistas. A BBC está em vias de concluir este processo. Uma parte da conferência foi dedicada a diferentes experiências de adaptação das redacções ao digital. Sendo o conteúdo feito para os media à disposição, o jornalista é chamado a "tayloring the news" num mundo de "costumised information". O tempo de produção de notícias é contínuo; "people is no more waiting for the news, they want them when they look for it". A informação está concentrada cada vez em menos fontes de distribuição e os websites reclamam "packages of ready to wear news". Com o tempo, verificar-se-á qual dos elementos incluidos na rede da convergência é o mais lucrativo e as notícias serão modeladas para este cliente principal. A digitalização consente uma radical economia de pessoal, dado que todos os intervenientes no processo tem acesso a toda a informação e podem agir na sua fabricação, selecção e emissão. Tal adaptação é susceptível de criar, num primeiro tempo, fortes reacções dentro das empresas, mas foram considerados positivos os resultados das diferentes experiências apresentadas.
Consequências para a regulação Os problemas de regulação neste novo universo são complexos. É sabido que o Conselho da Europa se tem vindo a ocupar da questão de um ponto de vista formal e jurídico, mas também ali se sentiu agora na necessidade de uma confrontação com o real. Assim a agenda da próxima reunião do comité respectivo foi adiada de Abril para Setembro e a sua agenda passou a ser definida por comunicações de operadores no sector, alguns dos quais representando instituições que intervieram neste encontro de Londres. Os conceitos de pluralismo, liberdade de imprensa, direito de resposta, de defesa dos públicos sensíveis, de transparência de propriedade entram em crise na sociedade de informação. A um aparente aumento de diversidade da informação corresponde, na realidade, uma sua homogenização, dada uma cada vez menor diferenciação das fontes de emissão. A liberdade de expressão pode ser julgada cada vez maior, mas as vozes dominantes abafarão as mais fracas numa escala superior à de hoje. A responsabilização na produção de notícias é problemática, dado os percursos que vão decorrer entre a emissão e os diferentes modos de recepção, sendo os tempos dos direitos de resposta e rectificação vigentes em Portugal incompatíveis com esta dinâmica. Num universo interactivo, a solução talvez venha a ser a da intervenção directa em rede do eventual lesado pela notícia. A filtragem de material sensível é cada vez mais problemática, até por o próprio ritmo de produção implicar tempos rápidos que fazem cair fases de reflexão. Ao nível anedótico, cite-se o episódio contado por Dick Hobbs da África do Sul a propósito de uma sua visita a uma estação local:
Em plenos corn flakes, na pressa de partir para a escola, pode imaginar--se a dificuldade dos pais em explicar aos filhos os acidentes de trabalho de um "male sex worker". A vigilância sobre o serviço público que cabe à AACS deveria ser intensificada, pois este, se devidamente formulado e dinamizado, poderá vir a constituir um campo relevante de resistência e diversidade face aos mecanismos de normalização monocórdica que se avizinham. Isto se conseguir ser um serviço público independente, plural e competente. Não é possível determinar se a evolução tecnológica em curso levará ao fim da AACS, pelo menos no seu modelo vigente, mas isso não nos dispensa de actualizar os nossos sistemas de referência e de pensar na sua adequação para uma eficaz defesa dos valores que a AACS pode continuar a ser chamada a defender na sociedade de informação.
Alta Autoridade para a Comunicação Social, em 29 de Maio de 2000
a) José Sasportes |